Maisfutebol
7 października 2026
Verão de 2015. Figueira da Foz. Os turistas provenientes da Beira Alta eram os mais animados. Afinal, a região vivia um feito inédito no século XXI – o Tondela havia subido à Liga. Os cânticos em torno da conquista da II Liga eram particularmente dedicados a um ponta de lança natural de Miranda do Corvo e, meses antes, arredado da ribalta.
António José Marreco Gouveia – o famoso Tozé Marreco – fez 25 golos em 51 jogos pelo Tondela em 2014/15, a melhor temporada da carreira edificada em Portugal e com passagens por Espanha, Países Baixos, Bulgária, Bélgica e Suíça.
Para lá de golos e momento inolvidáveis, o antigo goleador evoluiu para treinador e regressou a Tondela no verão de 2022, com a missão de devolver o emblema à Liga. Não aconteceu e saiu em abril de 2024 – para uma curta passagem pelo Gil Vicente – mas nem por isso deixou o coração dos beirões.
Há um ano, este refrão foi rascunhado por João Sanches, engenheiro informático natural de Mangualde (Viseu) e residente em Lisboa há 11 anos. A memória em volta de Marreco assaltou o pensamento na primavera de 2025, depois de assistir a um jogo do Farense numa esplanada da capital.
«Na flash, depois do jogo, apareceu o Tozé. Foi motivo para uma conversa de jantar, de boas memórias. O Tondela subiu e eu vivi o último verão enquanto residente em Mangualde. Depois dos exames fui uma semana para a Figueira da Foz e a malta de Tondela estava muito feliz. O Tozé Marreco era a personificação do sucesso», começa por contar ao Maisfutebol.
As saudades de Mangualde e da Beira Alta despertaram em João Sanches a inspiração para eternizar as sensações pré-universidade, os sonhos da adolescência e a ânsia do jovem migrado em Lisboa. Então, alinhou ideias e recorreu aos amigos Francisco Fernandes e Francisco Castro, com quem fundou a banda Baby Suicida.
João Sanches e Francisco Castro – gestor de dados natural de Lisboa – já se conheciam de outras aventuras e voltaram a unir forças em 2024, fundando os Baby Suicida no princípio de 2025, na companhia de Francisco Fernandes – lisboeta do rock e mestrando em Gestão e Estratégia Industrial.
O nome Baby Suicida remete para um tema de Adelaide Ferreira, pois o intuito passa por «homenagear e recuperar traços da música popular portuguesa», numa estética moderna e contagiante. A alternativa para o nome da banda seria Donzela Diesel, tema de Rui Veloso.
Baby Suicida: João Sanches, Francisco Fernandes e Francisco Castro.
O trio conta com 11 músicas no reportório, mas o tema revelado na terça-feira foi o mais complexo. Começou por ser um fado e evoluiu para uma marcha, não demasiado feliz, nem excessivamente fúnebre.
A sensação imediata é de se tratar de uma romaria acompanhada por uma banda filarmónica, numa cena extraída do teatro de revista ou de um dos filmes protagonizados por Vasco Santana, António Silva, Francisco Ribeiro e Beatriz Costa.
«É o nosso tema mais orquestrado – de longe. Até envolve tubas! Foi complicado unir todas as peças, para que não fosse só ruído. Incluímos uma parte mais melancólica, além de relatos dos jogos, apitos e aplausos. O futebol é a premissa, mas o tema remete para a nostalgia da música tradicional e popular», relatam os Baby Suicida ao Maisfutebol.
A produção deste hino envolveu 15 instrumentos – como tuba, cavaquinho, acordeão, adufe, flauta, contrabaixo, guitarra e teclado – e precisou de um ano para ser finalizado e gravado no quarto de Francisco Castro.
Além de “Cantiga de Beira”, “Santa Companha” e “As Mães de Bragança” – temas que, segundo os Baby Suicida, estão próximos da roupagem da mais recente faixa – a capa do “Café com Cheirinho” é curiosa pela presença de Eusébio. Mais munida de sentido está a capa da marcha dedicada a Tozé Marreco, uma viagem à infância de João Sanches.
«Trata-se de um frame de um vídeo. Quando jogava futebol no Mangualde, o meu pai gravava alguns jogos. Esta imagem representa essa nostalgia e recupera um ambiente preenchido pelos sonhos. E falávamos do Tozé Marreco no balneário.»
«Clubes como Tondela, Académico de Viseu ou Arouca subirem à Liga permite colocar as cidades e as regiões no mapa. Enquanto vivi em Mangualde sentia-me distante das oportunidades e dos sonhos. A promoção do Tondela foi um momento de alento. Todas essas sensações estão nesta música», remata Sanches, vocalista no tema dedicado a Tozé Marreco.
Para lá do corre-corre no quotidiano profissional, os Baby Suicida planeiam revelar novos temas até ao final do ano, quiçá para o EP ou álbum de estreia. Nos planos do trio está o regresso ao palco e o salto para a agenda nacional.
Depois de conversar com os Baby Suicida, o Maisfutebol desafiou Tozé Marreco a reagir ao tema que lhe é dedicado. O treinador de 39 anos vive a estreia no estrangeiro e está ao leme do Stade Tunisien.
«Agradeço muito esta lembrança. Espero que tenham o sucesso merecido, porque é uma grande música. Pena não ter saído antes do verão, porque dava para bailes e marchas. A história em Tondela teve sempre capítulos felizes, como jogador e treinador.»
«É uma história que fica imortalizada com esta música», disse o treinador ao Maisfutebol.
Na época em que Tozé Marreco fez 23 golos em 46 jornadas, o Tondela conquistou a II Liga com 81 pontos, um sobre União da Madeira, Desp. Chaves e Sp. Covilhã. Uma subida inédita e, agora, com um hino indie-tradicional.
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